"Qualquer que seja a chuva desses campos"

Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.

Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.

, Jorge de Lima.
In: Invenção de Orfeu - Canto I - XXVI

Comentários

patricia disse…
Esse soneto é lindo, diz coisas que deveriamos parar pra pensar mesmo ! Jorge de Lima, ótimo escritor !
Impoesia sim disse…
Ando com este poema no corpo há muitos anos. Sou de Pernambuco, também atualizo um blog com poemas.

Temos algo em comum por termos sentido a força dos mesmos versos.

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