FÁBULA, Eugénio de Andrade

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.



Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado àqueles gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.

Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem: rígido e fremente ao mesmo tempo, à força de concentrar todo o ímpeto nas nádegas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante - os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.

Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, eram os olhos da própria solidão.

Sem uma palavra, o homem ergue-se e começou a mijar. A rapariga levantou-se também e, de costas, parecia limpar as pernas. Eu escondi-me melhor atrás dos amieiros, não vi mais nada. Senti os passos de ambos afastarem-se, cada um para o seu lado, com o coração apertado. De um salto, atirei-me à cama que os seus corpos haviam feito na areia, respirando avidamente, como se o ar pudesse trazer-me mais que o cheiro morno e acidulado da urina, e deixei de perceber os passos já distanciados, o estalar de ramos secos aqui e ali, para só ouvir o silêncio. O doloroso, insuportável silêncio.



In: Vertentes do Olhar
, texto de 1946.

Comentários

vina apsara disse…
já ouvi "olhos rasos de espanto" em algum lugar...

vai fazer a questão 1? eu também... A gente podia se falar.

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